MATERNAGEM

Oficina Cultural Alfredo Volpi

São Paulo, Brasil

19/01 à 26/02

Artistas convidadas:

Mônica Ventura

Nazaré Soares

Texto Cura:

Renata Felinto

Fotos da ação / live de abertura realizada dia 19.01.2021

Fotos: Andrés Suarez

Jardim pra Erê.jpg
JARDIM PRA ERê, 2021.
Bárbara Milano e Mônica Ventura.
Instalação. Dimensões variáveis. (balanço de madeira, faixa de tecido, brinquedos e balões de gás hélio com sementes).
Foto: Bárbara Milano

Produzida pelo coletivo Nacional TROVOA, a conversa traz os pressupostos que estavam sendo pensados para a realização de MATERNAGEM. Live realizada no dia 30/11 na semana de encontros online: "Imaginário social: Identidade e corpo da mulher negra na contemporaneidade". Aborda algumas das obras presentes na exposição e, traz práticas das artistas Bárbara Milano, Mônica Ventura e Sheila Ayo em torno da afetividade [ amor ] como prática de realização no campo das artes. Assistam e se inscrevam no canal do TROVOA.

[ LIVES MATERNAGEM ]

Uma conversa com Vivian Scaggiante e Suzanne Shub, mães e lésbicas; doulas e fotógrafas; proprietárias da Além D’Olhar Fotografia, juntas dão apoio e registram partos humanizados. Um bate-papo para contar um pouco desse trabalho que traz uma reflexão sobre o parir como gesto; maternidade, e construção outra de núcleo familiar a partir de suas experiências.

Uma conversa com a oradora Maira Rocha, onde viajaremos na maternidade imaterial, espiritual, tão forte, que não é interrompida pela morte... Conversaremos sobre o luto pelas crianças que não chegam a nascer, das mães que ficam, e a coragem para seguir .Um bate-papo para contar um pouco desse trabalho de acolhimento e ressignificação.
 

Agora, uma conversa com o artista Roberto Freitas, que vivenciou a passagem de sua companheira Raquel, no momento do parto. Conversaremos sobre o processo de maternagem dele com sua filha Marta e, o aleitamento paterno. Um bate-papo que rasga a noção de masculinidade machista proporcionando uma abrangência do sentido de cuidado.

“Aos Filh@s que não chegaram a nascer /

Para Helena”

2019

Bárbara Milano

[ objeto-afetivo ] [ as meias do enxoval de minha sobrinha em totem de madeira e acrílico ] 

10cmX10cm X 1.10alt

Foto: Bárbara Milano

Leitura do texto no podcast VER.SAR #54

CARTA  [ MÃE ]

 

A mulher que engravida e que não pariu é mãe.

A mulher que perdeu sua(s) cria(s) na gestação é mãe.

A mulher que rejeita a(s) sua(s) cria(s) é mãe.

A mulher que abdica de si e de seus sonhos para estar com sua(s) cria(s) é mãe.

A mulher que muito trabalha e pouco vê a(s) cria(a) é mãe.

A mulher que agride a(s) sua(s) cria(s) é mãe.

A mulher que ama a(s) cria(s) acima de tudo e de todas as pessoas é mãe.

A mulher que chora a(s) sua(s) cria(s) ainda é mãe.

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E, sim, primeiro ela é uma mulher.

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Uma vez uma mulher mãe, sempre uma mulher mãe, seja para aquelas cuja(s) cria(s)

[ não chegaram a nascer ] 

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Não é toda a mulher que quer ou que pode ser mãe, no entanto, uma vez mãe, para o

bem ou não, essa condição radical e devastadora transforma a todas as mulheres que

passaram por essa experiência de renascimento. Nela, a sociedade espera que feneça  a mulher que somos para que, sacramente, encarnemos apenas a mãe.

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Que inexista a possibilidade de desejos carnais e de realizações materiais, tão

próprias das sociedades ocidentalizadas capitalistas, como sonhos a serem alcançados.

Há as que almejam esse lugar. Há as que possuem outras perspectivas que envolvem

suas vidas de mulheres e mães. Essa conformação é uma deformação na medida em que não contempla a todas nós em absoluto, no entanto, nos é imposta sem negociação. Essa mulher mãe realizadora, transformadora, criadora que pretende estar no mundo compartilhando e contribuindo com a sua potência que transborda os limites da maternidade, é vista com maus olhos no hoje...

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Na nossa sociedade cristianizada vislumbram que ser mulher mãe é conformar-se à forma da maternidade rosa e azul bebê. 

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Esse olhar de soslaio para as mulheres mães que ainda querem sorrir e viver para além

da sua condição de mães, é reiterado pela população brasileira a cada vez que uma

mulher mãe é vítima das muitas violências que atravessam a experiência da maternidade. Se não fossem suficientes as violências naturalizadas que já são praticadas contra as mulheres cisgêneras e transgêneras, somadas a elas e em outra vertente estão as inúmeras violências contra as mulheres mães, de todas as categorias de mães que mencionamos no texto.

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Ser mulher mãe é estar em constante estado de júdice por qualquer motivo, inclusive,

por aqueles que dizem respeito ao direito de continuar a ser mulher e a ter projetos.

Quando mulheres mães são assassinadas porque expressam que além de mães

querem viver suas vidas, constatamos a hipocrisias das mesmas pessoas que lutam

pelo direito à vida quando se trata do direito ao corpo da mulher que não deseja ser

mãe.

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Por que essas mesmas pessoas não se posicionam ante aos feminicídios que

patologicamente se tornam crônicos no Brasil?

Por que não temos lutado e lamentado com e pelas mulheres mães que perdem suas

mulheres filhas, pelas mulheres irmãs que perdem suas mulheres irmãs, pelas

mulheres filhas que perdem suas mulheres mães? 

Por que nossa luta e nosso pranto tem sido atravessados por uma moralidade seletiva que quando é conveniente aciona o cristianismo e brada pelo direito à vida do feto no ventre da mulher que virá a ser mãe?

Por que temos permitido que a mulher mãe que é metonímia da mãe terra seja violada tão brutalmente?

Porque o processo colonial e sua selvageria que nos esganou como uma forma suprema de civilidade, embruteceu as nossas almas e profanou cosmovisões dissonantes. Se a terra já foi invadida e violada mesmo nos provendo, terra consagrada e mitificada em muitas culturas não ocidentais, por que a mulher mãe que também supre a humanidade não seria?

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No nosso adoecimento coletivo sobre o útero terra acrescentamos cimento, asfalto, muitos tipos de calçamento e se esquecendo de que debaixo de nossos pés, nos pisos de pedras lapidadas e extraídas das entranhas da terra há geração de vida. No nosso adoecimento coletivo sobre as mulheres mães acrescentamos tantas interdições, privações, sobrecargas e responsabilizações que também nos olvidamos que ali há uma vida a ser vivida e que essa vida por si, sendo essa mulher mãe ou não querendo ou podendo ser, também água com a sua existência outras vidas de entes que lhes são afeto.

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Precisamos voltar a ser pessoas viventes numa sociedade de pés descalços, que possibilite a intimidade com a terra, com o sentir, com outras formas de pulsar. Pulsar que se relaciona aos úteros palpitantes geradores de vida, de criações, de esperanças. Andar sem calçados na área externa da Oficina Cultural Alfredo Volpi. Andar [ sem medo ] pelas ruas das cidades. Andar lado a lado com outras mulheres, mulheres mães que sentem diferente umas das outras e que compartilham, estranhamente, o mesmo tipo de medo sobre ser mulher. E isso não deveria ser naturalizado.

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"Maternagem" de Bárbara Milano é uma exposição que poderia ser apresentada em qualquer localidade do Brasil. Fruir a mostra e a poética problematizadora e regeneradora apresentada em suas obras é fecundar na mente outras formas de lidarmos com as dores da maternidade, do acolhimento, da frustração, do luto, da luta, do reviver. Que essa fecundação gere outros modos sensíveis e justos de  tratarmos dos crimes contra as mulheres, contra as mulheres mães, todas filhas da terra que é também parideira e que nos acolhe depois, depois que somos apenas matéria, mãe terra nos cobre e nos recebe de volta.

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E no coração da mulher que te pariu? Você já descobriu o que se passa naquele

coração de mulher mãe que te pariu?

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Nossos sinceros votos de que essa leitura seja consentida pelo seu ser.

 

 

Renata Felinto.

 

amarcura-insta.jpg

AMARCURA, 2020

poema-lambe-lambe

versão para impressão em A4

Ficha Técnica:

MATERNAGEM // Bárbara Milano

 

Artistas convidadas: 

Mônica Ventura

Nazaré Soares

 

Texto Cura:

Renata Felinto

 

Obras:

 

“Mãe”

2019

fotografia de performance 

120 x180 cm

Foto: Gabriel Vieira

 

“Aos Filh@s que não chegaram a nascer / Para Helena”

2019

objeto-afetivo [ as meias do enxoval de minha sobrinha em totem de madeira e acrílico ] 

10cmX10cm X 1.10alt

 

“Amarcura”

2020

poema-lambe-lambe

2 m X 3 m 

 

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Bárbara Milano e Mônica Ventura

“Jardim pra Erê”

2021

instalação / ação

[ balanço de madeira, faixa de tecido, brinquedos e balões de gás hélio com sementes ]

Bárbara Milano e Nazaré Soares

“Pra não te Perder / Encontro Precioso”

2021

objeto-afetivo

6 m (maleável)

[ rede de pesca e abayomi ]

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MATERNAGEM

De 19/01 à 27/02

 

Oficina Cultural Alfredo Volpi

Rua Américo Salvador Novelli, 416 - Itaquera,

São Paulo - SP

Equipe:

Gabriela Barros

Gerson Oliveira 

Rafael Xavier

Vanessa Ogino

Alice Carvalho

© 2020 Bárbara Milano